" Escreve-me! Ainda que seja só uma palavra, uma palavra apenas, ..."

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SÓ UM CONTO...

Aquela noite era diferente, não que houvesse acontecimentos novos, ou mesmo alguma variação meteorológica. Era uma noite especial, havia um aroma não perceptível, uma novidade ainda anônima, que destruía a serenidade da alma. O que estaria ocorrendo? Seria algum presságio? A normalidade daquele dia não tinha sido modificada, a rotina não tinha sido tocada, nem mesmo por um acidente corriqueiro de trânsito. Seu trabalho fora desempenhado como nos dias, meses, e anos anteriores. Tudo igual.

Tinha uma vida, aparentemente, feliz. Casada há vinte anos, era alvo da inveja de todas do escritório. Um marido perfeito, um amante surpreendente, sua casa era o verdadeiro lar, aqueles que só aparecem nos doces romances, lidos à flor da idade. Quem a conhecia, encantava-se com o dinamismo com que se entregava às coisas e a paixão que emergia de seus atos.

Com seus quarenta e três anos, que não aparentava, mostrava a jovialidade de quem ama. Era uma mulher bonita, de uma beleza enigmática, sedutora, conquistadora de olhares desejosos por sua ânsia de vida. Era isso, ela exalava vida. Suas angústias, seus momentos depressivos vinham dessa constatação: precisava viver, sentir a liberdade de estar viva soprar sobre sua pele. Toda essa urgência em viver dava um tom conflitante em sua alma. Não conseguia entender o porquê de sua insatisfação, qualquer mulher gostaria de Ter uma vida como a sua, por que não era igual às suas amigas, o que precisava para ser feliz? Como obter satisfação com o que tinha, talvez acomodando-se?

Mas, naquela noite anunciava algo novo, sensação instintiva anunciava uma mudança. Sentia-se diferente, previa um fato novo. O que seria? Teria se conformado com a necessidade da acomodação, ou estaria sendo desvendado o seu verdadeiro destino? Nada lhe passava concretamente pela cabeça, vagas indagações, confusos pensamentos que só a deixavam mais perturbada. Estaria enlouquecendo? Se ao menos a infinita noite terminasse, talvez tudo voltasse a ser como antes. Necessitava desse acontecimento, precisava mudar, não podia continuar a assistir ao enterro de sua alma, queria viver, queria se encontrar, tinha que traçar seus caminhos, mesmo que os reconstruísse várias vezes.

Na manhã seguinte precisou sair mais cedo que o normal, ia encontrar-se com um empresário vindo de São Paulo, para uma reunião de trabalho. Chegou ao hotel pontualmente às oito horas, ele estava atrasado, pediu ao recepcionista que o avisassem de sua chegada. Minutos depois foi informada de que o empresário estava adoentado e iria recebê-la em seu apartamento.

Aquela idéia a deixou inquieta. Como poderia encontrar-se com um homem em um quarto de hotel? Mas, seria apenas um encontro de negócios, não haveria mal e, além do mais, Mário e ela já se conheciam da reunião em São Paulo, tinham travado um bom relacionamento profissional, apesar do curto contato. Mas, por que o fato de se ver sozinha com ele num quarto a assustava? Ela procurou lembrar de algum detalhe, uma palavra ou gesto que justificassem sua insegurança, nem percebeu quando o elevador chegou ao décimo segundo andar. Não encontrou nem um motivo para suas inquietações e, ao perceber o nervosismo demonstrado por suas mãos molhadas, aceitou a justificativa de que passara a noite em claro e estava muito tensa com seus questionamentos. Tentou se acalmar, seguia o longo corredor, a caminho do quarto de Mário, alheia a tudo, como se somente ela estivesse ali.

A distância percorrida foi enorme, pensou em recuar, voltar para seu mundo de indecisões. Não entendia o que estava ocorrendo, sempre fora uma mulher dinâmica, com pensamentos próprios, o que a inquietava tanto? Pensou em sonhos não vividos, projetos abandonados. Sem que ela quisesse, afloravam todas as suas angústias, todos os seus anseios, tornava-se nítida sua vida de insatisfações. Não tinha um temperamento passivo, precisava responder às suas expectativas. Criara um casulo a seu redor, talvez por medo do desconhecido. Tinha que dar seu grito de guerra, ansiava por vida em sua intensidade.

Quando voltou à realidade uma porta abria-se à sua frente, mostrando porque a incomodava o fato de estar ali, a razão do nervosismo, aquele olhar devastador, um olhar que fazia sentir-se viva, dominadora de seus caminhos.

Sentiu-se desejada e desejante, sua carne vibrava numa incontrolável vontade de se dar por completo. O silêncio desvendava todos os seus pensamentos, ambos sentiam a ardência de seus corpos, um delírio estonteante, a disritmia das respirações, o frenetismo de suas bocas, o pulsar de veias dilatadas, tudo numa nebulosa imagem sem formas, somente a sensação de estar viva. Num relance, percebeu a ameaça de uma palavra, logo sufocada por um longo e desesperado beijo, como a suplicar a não destruição do momento pela concretude das palavras. Bebeu aqueles instantes sensitivamente, com a pele, o olfato, numa imensurável mistura de toques e cheiros, consciente de que estava mudando o curso de seus passos, estava construindo seu destino.

Sem nenhum pensamento em mente, passou pelo saguão do hotel exalando uma determinação invejável. Não fora aquela mulher que entrara duas horas atrás, tinha certeza de estar ali e sabia que todos a notavam. Sentia-se mais que uma mulher, era a responsável pela solução de seus conflitos. Tornara-se a protagonista de sua vida, tinha, agora, que organizá-la, colocar tudo em ordem. A decisão principal já havia sido tomada, era a responsável por sua felicidade. Sabia o que queria e alcançaria, não desperdiçaria, jamais, a oportunidade de se encontrar com ela mesma e de ser feliz.

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