" Escreve-me! Ainda que seja só uma palavra, uma palavra apenas, ..."

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sempre há um desbotar...

Nem sempre os amores sonhados nas janelas de nossos castelos se realizam. Às vezes chegamos no quase, mas a névoa da imaturidade nos arrasta para outros horizontes. Talvez, realmente, existam pessoas que não se prestam ao amor, pois esse quando no caminho de sua concretude afasta, assusta, amedronta... Por sorte percebemos o quanto podemos ser cruéis com os que nos amam de verdade, para com os que, ao menos pensamos amar.


Um dia algum poeta falou que nunca vou ter a capacidade de amar. Quem sabe não esteja aí o porquê de não conseguir ser poeta apesar de perceber a poesia em tudo e em todos. Respirar poesia e tornar o sentimento vivido em poesia são tentativas vãs para quem não sabe poetizar o amor. Felizes dos loucos, sensíveis e inconseqüentes poetas, que rondam nosso mundo de poesia sem letras. Só a eles cabe a revelação do amor e apesar de sentirem o ardor da pele dilacerada, a dor do não possuir em carne o que prevêem em versos. Eles não conhecem a dor do não amor.

O não-amor é composto de versos desconexos, desses que inexiste o sentido ou mesmo o sentir. Óh, pobres poetas que conquistam todos os mundos imaginando possuir a maior de todas as dores, mas não alcançam a dor maior da falta do sentir. A sensibilidade do poeta o cega, afasta-o desta vivência. E nessa contínua cegueira, imagina possuir o poder de mudar os destinos acreditando transformar corações. Machucam-se, machucam-nos, na construída ilusão, mútua, de acabar com o não-amor.

Sai ferido o dono do não-amor, sai aos pedaços o montador de sonhos. Mas, ao contrário do primeiro consegue se reerguer e faz do amor temporã uma lembrança poética. Sim, isso é muito bom. Lembranças poéticas, por mais doídas que sejam, são alicerceres para outras paixões, são energia para novas esperas e, principalmente, para esperar outros olhos já a esse tempo esperados. O tono que alcança a dor do poeta e a metamorfose dessa mesma dor faz do poeta um ser mágico. Um deus? Pode ser, já que promove verdadeiros milagres em seu brincar com palavras.

Não, o poeta não percebe coisas sob o olhar negativo, só pensa que sim. Aos poetas cabe sentir o amor maior, a enorme dor, a gravidade da falta, a poeticidade da paisagem. Mas, e daí? O que fazer com tanta poesia circundante em nossas vidas, entranhada em nossas vísceras? Fechar os olhos?!?! E como aproveitar o não-amor para ensinar ao poeta que a vida não é só de festa, de delírios e que nem todo olhar carrega consigo o mel das suaves feras listradas. Creio não ser capaz de missão tão delicada; afinal, consigo o poeta carrega um ser meio homem, meio menino, que se faz presa quando prende.

Melhor deixar o pensamento vindouro passar, nada melhor que a bruma das manhãs de outono serrano, ou a gélida carícia das brisas de inverno para aliviar a ardência das marcas e arranhões dos corações pergaminhos repletos de não-amor. Afinal, tudo muda numa constância aterrorizante, até o negro vestido de gala desbota ou desbotou.

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