Ao entrar naquele restaurante fiquei totalmente atordoado. Estaria sonhando, ou realizando meu desejo num momento de delírio? Seria possível haver no mundo outro olhar igual? Impossível. E os gestos, tão semelhantes, a maneira de jogar os cabelos. Aquela figura impressionante seria a mesma de anos atrás? Impossível alguém tão parecido.
Não tive coragem para aproximar-me, fiquei observando aquela mulher, perdi a noção do tempo, fatos e cenas retornavam de um passado recente, enchia minha mente com lembranças doídas. Onde estariam os personagens daquela história, da qual participei, embora forçado, como um distante espectador? Parecia assistir a um filme, as lembranças vinham como imagens vivas, estranha a sensação de Ter falhado com a pessoa mais importante de minha vida.
Quem olhasse aquela mulher não poderia imaginar as sofridas experiências pelas quais tinha passado. Suas feições eram serenas, apresentava um brilho na pele só superado por seu olhar profundo e, excepcionalmente, vivo. Era isso. Ela contagiava todo o ambiente com sua vivacidade. Estaria enganado ou estava diante de outra pessoa? Era a mesma mulher, mas uma outra pessoa, como seria poderia ser real algo assim? Todos que estavam em sua mesa deixavam transparecer um enorme prazer em estar junto a ela, como a beber aquela energia emitida por ela,. Mas, com certeza, ninguém naquele grupo conhecia tão bem seu passado, ou mesmo sabia como usufruir de sua presença como eu já soube um dia.
Era o dia mais feliz de sua vida, recebera uma promoção na firma, a primeira e tão esperada. Resultado de grande esforço, convicção e competência. Pensamos em sair para comemorar, ela não aceitou. Queria correr ao encontro daquele que era alvo de suas atenções e da verdadeira paixão: Rodrigo.
A surpresa seria completa, ele não sabia do cancelamento de sua viagem a Brasília, o que lhe daria uma oportunidade para deixar de ser, ao menos por uns dias, o centro das exageradas atenções de Laura.
Estava tão eufórica que nem telefonou, avisando a mudança de planos. Comprou um bom vinho e seguiu alucinada para casa, estava louca para ver a reação de Rodrigo: abraços, beijos, o brotar do desejo que sempre os acompanhava.
O palpitar do coração trazia a lembrança do primeiro encontro, a pressa tornava o caminho longo e o relógio o pior inimigo. A culpa era dela por insistir em morar naquela maravilhosa, mas distante parai, a estrada chegava ao fim. Uma breve tranqüilidade sossegou-lhe o espírito ao avistar a casa, tudo era lindo, um retrato da verdadeira felicidade. As cortinas esvoaçavam com a brisa do mar, o jardim estava florido, tudo tão perfeito, até parecia não ser real.
Entrou sem alvoroço, assim a surpresa seria maior. Na sala não encontrou ninguém, o escritório estava vazio. Um cheiro indiscritível começou a incomodá-la, dirigiu-se para o quarto. Ao subir as escadas teve uma sensação estranha, o cheiro ficou mais forte, sentiu um enorme calafrio, o pavor dominou impetuosamente todo o seu corpo. Que seria aquilo? O medo preencheu sua alma sem nenhuma explicação.
De repente, entrou numa mistura de sonho e pesadelo: bocas sôfregas, corpos entrelaçados, roupas espalhadas, imagens torcidas. Ah! Aquele cheiro insuportável novamente, o odor do sexo.
Gargalhadas, suspiros, o real e o imaginário mesclavam-se, como se uma espessa névoa envolvesse todo o ambiente. Vultos embaçados , aquele cheiro repugnante que entranhava por todo o seu corpo. Ouvia o riso da dor, não sentia suas mãos, o volante deslizava, não tinha noção de tempo, não sabia onde estava, o que fazia, em que pensar, a quem procurar. Até que tudo terminou.
Sentiu o enorme vazio do nada, estava confusa, mas calma. Um longo silêncio, a dor dos estilhaços da alma, como um espelho partido. Era a imagem que tinha de si mesma, o reflexo em um espelho partido, Depois a imensidão do escuro, a luz apagou-se, não queria o escuro, sentia necessidade de luz, de calor. Não sentia nada, como se estivesse num fosso profundo, sem saída e, apenas se deixava quieta, sem expressar nenhuma vida.
Quando fiquei sabendo do que acontecera, fiquei alucinado. Não sabia o quê, mas precisava fazer algo por aquela que era a razão do meu existir. Sentia-me o maior covarde de todos, se tivesse revelado meu amor, talvez nada disso acontecesse. Deveria tê-la acompanhado até em casa naquela tarde, mas ela só via aquele homem em sua frente, só vivia para ele e, agora, estava morrendo por culpa dele.
As previsões eram desfavoráveis, o acidente de carro fora sério, as conseqüências eram desesperançosas. Mas, o que mais preocupava era que Laura, mesmo em coma, não parecia querer reagir, estava se entregando como a desejar a morte.
Passei dias ao seu lado, pedia, implorava para que ela lutasse por viver. Tentei declarar o meu amor, acobertado por seu estado de inconsciência, ainda assim, faltou-me coragem. Um dia, não me contive, agarrei sua mão, só sentia uma profunda dor por todo o meu ser, sem raciocinar debrucei-me sobre seu corpo e, como um náufrago quase desfalecido, sussurrei-lhe aquilo que nunca revelara diante de seus olhos. E dando um suave beijo em seus lábios despedi-me de meu único e verdadeiro amor.
Acompanhei a sua recuperação à distância, até que soube de sua viagem para a Europa. Isso tudo aconteceu a uns quatro anos, mas parece que vivi tudo a alguns minutos. Quando soube do casamento de Rodrigo, tive um medo incrível, só me senti aliviado ao saber que a noiva era outra mulher e não a minha Laura, a mulher que nunca tive em meus braços, por medo, excesso de sublimação ou a certeza dela merecer alguém muito melhor que eu.
Perdido em meus pensamentos, assustei-me ao ouvir a suavidade daquela voz. Nunca meu nome soara de forma tão meiga. Laura... Ela me reconhecera, estava diante de minha grande chance, não a desperdiçaria mesmo que houvesse a recusa ela saberia do meu amor. Fiquei tonto, tantas vontades contidas, sentimentos ofuscados pela insegurança da possível desilusão. Agora, voltava-me o fôlego, mostraria tudo, mesmo que não a vise nunca mais.
Faltou-me o chão, não acreditava no que estava vivendo. Falei tudo o que ocultara por todo esse tempo. Ela olhava-me com a expressão mais meiga que já vira. Escutava cada palavra, como a orquestrá-las. Fiquei sem graça, não sabia mais o que dizer, foi quando senti o mais delicioso de todos os carinhos. Ela beijou-me com a própria alma, um caloroso e esperançoso beijo. Um beijo de quem está apta a tentar uma nova vida, um novo amor.

Olá Vivianne!
ResponderExcluirAs marcas que a memória molda no ser humano!
Belissimo texto "impregnado" de amor!
Um beijinho,
Renato